terça-feira, 14 de novembro de 2023

Mais médicos: Formado do Seridó, paraibano exalta interiorização do programa no RN

“Eu existo e sirvo a um povo porque pessoas como a senhora lutaram por isso”. A declaração do médico Lucas Silva foi dirigida à governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, depois de uma apresentação cultural durante solenidade de lançamento do Programa de Atenção Primária e acolhimento a 183 profissionais na retomada do Programa Mais Médicos no Estado. O evento realizado no final do mês de outubro, no Centro Administrativo, em Natal, contou com a presença da ministra da Saúde, Nísia Trindade.

Em 2018, Fatima Bezerra, então senadora, fez referência a Lucas, enquanto estudante de medicina, num pronunciamento feito no Congresso Nacional, em Brasília-DF, para tratar sobre a interiorização dos cursos de medicina no Rio Grande do Norte.


“Falava da nova possibilidade para aqueles de vida humilde, que agora poderiam estudar medicina”, afirmou Silva.

Natural de Patos, Paraíba, Lucas Silva cresceu numa casa de três mulheres, com sua mãe e tias. Ainda muito jovem aprendeu a tocar instrumentos musicais e passou “a compor grupos com amigos e mais tarde com profissionais, tocando teclado, bateria, cavaquinho e outros, em festas noite adentro”.

Somente em 2015, logo após período obrigatório de serviço militar e enquanto tinha um emprego de “cobrador de um programa de rádio”, despertou para tentar cursar medicina.

“Escolhi a medicina dentre outras no vestibular devido a grandiosidade que, aos meus olhos da época, a medicina exalava. Mudanças de contexto, de modo de viver e para ser útil à sociedade me eram necessárias e a Medicina representava isso”.

Sem referências na família de outros profissionais médicos formados e sem conhecer profundamente a medicina, Lucas mergulhou “nas matérias iniciais do curso, com bastante conteúdo relacionado à Saúde Coletiva e à Medicina de Família e Comunidade. Dessa forma, foi junto desses conhecimentos que estabeleci meus conceitos sobre a medicina, a ética e sobre a forma de exercer este ofício”.

E é com essa bagagem que Lucas reencontrou Fátima Bezerra, agora governadora do Rio Grande do Norte.

“Hoje, em 2023, a senhora, agora governadora, me abraça médico, formado na instituição de excelência fincada no meio do Seridó, atuante do SUS, da Atenção Básica de um pequeno município do interior do estado. Isso é uma vitória nossa”, comemorou.

Assim como no discurso realizado por Fátima Bezerra há 5 anos, Lucas reconhece o papel da Universidade na sociedade, “impactando com o progresso através da ciência e de tudo que é necessário à sua construção. Fortalecer a educação superior nos interiores, possibilita a pessoas que nunca chegariam à Universidade, serem beneficiadas, seja com o ensino propriamente dito, expandindo mentes, revelando talentos; com as ações extensionistas, que estabelecem entre universidade e o povo, quebrando os muros metafóricos das escolas; ou com a pesquisa que pode se dedicar ao estudo para aquilo interessante à localidade”, avalia.

Mais do que isso, a interiorização da formação superior pode ajudar a combater a fuga de cérebros, retendo talentos locais em suas comunidades de origem.

“A interiorização não apenas combate a histórica fuga de cérebros, que abria mão de seus talentos por não possuir estrutura para comportá-los em suas localidades, mas também descobre outros que jamais seriam reconhecidos. Isso gera uma revolução que impacta, desde a vida individual até a coletiva em torno daquele indivíduo agora contemplado com conhecimento acadêmico de qualidade e uma profissão”.

Médico e artista popular, Lucas integra a Escola Multicampi de Ciências Médicas, da qual é egresso, e destaca como a interiorização do curso tem injetado profissionais por todo o Seridó e regiões vizinhas.

“Isso se deve sobretudo à dois motivos: a interiorização do curso de medicina e ao Argumento de Inclusão Regional, este que garante incentivo aos estudantes oriundos de áreas adjacentes ao curso, facilitando suas entradas na universidade próximo de onde cresceu, dando a oportunidade de, enquanto profissional, também se fixar por ali”, pontua Silva.

No entanto, existem desafios que ainda precisam ser superados para expandir a política de interiorização da educação superior. Para Lucas, na perspectiva de um estudante, há dificuldade para manter alunos de condições mais vulneráveis no ensino superior. A falta de atualização nos valores e a redução nos auxílios estudantis são obstáculos críticos, evidenciados pelo cenário no campus de Caicó, onde a ausência do Restaurante Universitário e insuficiência de apoios financeiros complicam a jornada acadêmica.

Ele ressalta a percepção de entraves para o progresso acadêmico, apontando a resistência a mudanças na universidade, que, por vezes, contradiz “costumes antigos que beneficiam a poucos, algo que no interior vem sendo quebrado paulatinamente”.

Para Lucas, a educação superior desempenha um papel crucial no aprimoramento dos serviços de saúde em regiões remotas.

“A presença massiva de estudantes oriundos de áreas remotas, graduando-se em cursos da saúde que estudam conteúdos relevantes à população local (como doenças prevalentes, costumes e cultura local, ambientados no mesmo espaço geográfico), favorece à fixação profissional, permitindo atuação nos seus próprios locais ou próximo a eles”.

Além disso, avalia que a educação superior contribui para a qualificação dos serviços por meio de ações de extensão, proporciona oportunidades de atualização profissional com cursos e pós-graduações. O impacto positivo é ainda ampliado pela presença de estudantes em cenários reais de saúde, proporcionando um valioso tensionamento positivo que estimula melhorias contínuas nos cuidados médicos oferecidos.

“Hoje resido e trabalho em Lagoa Nova, uma pequena cidade serrana do Seridó e que, diferente do seu histórico de longo prazo, hoje possui todas as equipes de saúde completas, com garantia de todas as profissões previstas para as Equipes Saúde da Família. Em sua maioria, os profissionais são oriundos de cursos superiores instalados nas cidades do interior, com os campi CERES, Caicó, e Facisa, Santa Cruz”, revela Lucas.

Para ele, isso resulta em uma melhor oferta de serviços à população, mais prevenção, menos adoecimento, maior promoção à saúde.

“Melhora a qualidade de vida e dignidade das pessoas em seus territórios”.


Nesse contexto, a retomada do programa Mais Médicos é vista por Lucas como essencial, especialmente no Rio Grande do Norte, onde as cidades do interior compartilham uma histórica escassez de profissionais médicos, de acordo com a última demografia médica brasileira. O programa, ao oferecer incentivos federais, desempenha um papel crucial ao garantir a fixação de profissionais em áreas historicamente carentes.

Essa iniciativa é percebida como um provimento necessário, simplificando o acesso à saúde para toda a população, contribuindo significativamente para suprir a carência de profissionais médicos nas regiões mais desafiadoras do estado.

“As necessidades em saúde são muitas, sobretudo aquelas ligadas à vulnerabilidade social, como as doenças crônicas não transmissíveis, que sabidamente afetam de maneira desigual as pessoas de menor nível socioeconômico; bem como as doenças inctoparasitárias. Estas, em geral, são doenças preveníveis através de medidas de saneamento básico, da oferta de água tratada e através de conhecimentos sobre boas práticas na manipulação de alimentos”.

Ele avalia que o programa Mais Médicos “garante maior acesso de todas as pessoas ao profissional médico da atenção básica, auxiliando na resolução das principais e mais frequentes doenças/condições as atingem. Também possibilita melhor organização dos serviços de saúde, através do provimento de profissionais historicamente escassos nessas áreas mais remotas. O programa também incentiva ao aprimoramento do conhecimento médico sobre a Atenção Primária, através da oferta de cursos de qualificação. Tudo isso resulta em avanços na saúde das pessoas, com consequente melhora na qualidade de vida nas comunidades”.

Há, no entanto, fatores que podem se constituir como desafios que os profissionais médicos enfrentam ao trabalhar em comunidades mais vulneráveis, “incluindo as distâncias geográficas, menores recursos disponíveis em localidades afastadas dos grandes centros, desde recursos para a execução profissional (insumos, medicamentos, farmácias, especialistas, hospitais...), como também escassez de recursos locais atraentes à moradia de profissionais nessas áreas de atuação. Ainda há fatores relacionados à micropolítica local”, pontua Lucas.

A vivência de médicos do programa em comunidades locais destaca uma relação estreita e colaborativa com as equipes de saúde e a população. A ausência de separação entre profissionais oriundos do programa e os demais membros da equipe reflete uma abordagem unificada na gestão da clínica, planejamentos em saúde e enfrentamento de casos complexos.

“Na minha vivência, a relação com a equipe de saúde é estreita de modo que não há separação entre eu, enquanto profissional oriundo de programa de provimento, e os demais. Somos a equipe de saúde, compartilhando a gestão da clínica, os planejamentos em saúde, os casos mais complexos e os desafios do dia a dia”, revela Lucas.

A relação com a comunidade é caracterizada por uma “alegria mútua”, evidenciada pela fixação prolongada do médico na mesma comunidade por mais de um ano. O fácil acesso a um atendimento médico de qualidade, fundamentado em ciência e ética, contribui para a melhoria dos indicadores de saúde locais. A gratidão da população é frequentemente expressa por meio de presentes, como produtos agrícolas, destacando o reconhecimento e a conexão estreita entre profissionais de saúde e a comunidade.

Profissional, vinculado ao Programa Médicos, Lucas enfatiza a relevância do programa que visa à fixação do profissional na localidade.

“Sou profissional instalado nesta localidade através do Programa Médicos pelo Brasil, que estabelece um plano de carreira propicio à fixação do profissional naquela localidade, através de diversos incentivos, incluindo acadêmicos, como a pós-graduação em Medicina de Família e Comunidade, seguido da contratação por prazo indefinido. Essa característica é muito importante para médicos que pretendem fazer carreira na Atenção Primária, mas que receiam devido a histórica desvalorização entre as especialidades médicas”.

Para Lucas, “poder contar com a garantia de carreira médica, em uma localidade próxima de onde minha família reside, com características geográficas, climáticas e culturais semelhantes é extremamente atraente. Atualmente não tenho qualquer perspectiva de mudança de local de trabalho, de modo que planejo a permanência, a vinculação e manutenção do trabalho com constante aprimoramento, o que é positivo para o trabalho em saúde na comunidade e beneficia o povo dali habitante”.

Fonte: Saiba Mais 

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