Operação do Ministério Público do RN aponta que o esquema de apostas chancelado por uma autarquia de Bodó registrou empresas bilionárias em nome de trabalhadores de baixa renda — enquanto o controle, diz o MP, ficava com um casal.
Uma empresa registrada no nome de um porteiro movimentou R$ 4,6 bilhões em 2025. Outra, no nome de um copeiro, quase meio bilhão. As duas foram credenciadas para operar apostas pela LotSeridó, a loteria municipal de Bodó, cidade de pouco mais de 2 mil habitantes na Serra de Santana. É o que mostra a representação do Ministério Público do Rio Grande do Norte que embasou a Operação Conto da Sorte, à qual o Blog do Dina teve acesso.
Para o Ministério Público, esses nomes são “laranjas”: trabalhadores de baixa renda cujos documentos teriam sido usados para esconder os verdadeiros donos do dinheiro. A investigação apura lavagem de capitais — crime com pena de 3 a 10 anos —, além de associação criminosa, induzimento à especulação, crimes contra as relações de consumo e exploração de loteria não autorizada. A Justiça já bloqueou R$ 145 milhões do grupo.
Ninguém foi condenado. A própria peça do MP afirma que ainda não emite “juízo definitivo acerca da existência e autoria” dos crimes — a fase é de coleta de provas. E o homem apontado como líder do esquema, Camilo Roma de Brito, já declarou à imprensa, em outubro, que é dono de três operações de apostas e que suas empresas estariam inativas desde dezembro de 2024.
Como um porteiro e um copeiro movimentam quase R$ 5 bilhões?
Um porteirobeneficiário do auxílio emergencial em 2020
movimentouR$ 4,6 bi
Um copeirosalário registrado de R$ 651 a R$ 1.357
movimentouR$ 467 mi
A Receita Federal cravou: 99% de probabilidade de “interposição fraudulenta de sócios” — o nome técnico do laranja.
Fonte: representação da Operação Conto da Sorte (MP-RN). Elaboração: Blog do Dina.
Um porteiro, R$ 4,6 bilhões
O personagem mais improvável dessa engrenagem trabalhava como porteiro e foi beneficiário do auxílio emergencial em 2020. Ele consta como o último administrador da LisboaPay, uma das “facilitadoras de pagamento” credenciadas pela loteria de Bodó.
A empresa foi baixada na Receita Federal em abril de 2025. Mesmo assim, segundo a investigação, registrou no ano o “assombroso crédito de R$ 4,6 bilhões”. Uma empresa morta no papel, bilionária na conta.
Foi a LisboaPay, aponta o Ministério Público, que recebeu via PIX o dinheiro de apostadores de uma plataforma de jogos ilegal. Uma consumidora lesada chegou a processá-la na Justiça de São Paulo.
Representação · Ministério Público do RN“Uma empresa baixada na Receita Federal registrou, no mesmo ano, o assombroso crédito de R$ 4,6 bilhões.”
Representação · Ministério Público do RN“O sistema da Receita Federal apontou 99% de probabilidade de interposição fraudulenta de sócios na empresa registrada em nome do copeiro.”
Reprodução dos termos da peça da Operação Conto da Sorte. Elaboração: Blog do Dina.
Um copeiro e quase meio bilhão
A segunda história se repete num molde quase idêntico. A AveiroPay, outra facilitadora do grupo, ficou registrada no nome de Marcos Vinícius Santos, um homem que, segundo a Receita, exercia a função de copeiro — e antes, faxineiro —, com salários que variaram de R$ 651 a R$ 1.357.
A empresa não declarou receita, não registrou empregados e, ainda assim, movimentou R$ 467,4 milhões em 2025. A discrepância foi tão grande que o próprio sistema da Receita Federal cravou: 99% de probabilidade de “interposição fraudulenta de sócios” — o nome técnico do laranja.
Aqui, porém, o Ministério Público faz uma ressalva. Diz que Marcos Vinícius “não figurava como mero laranja”: há um registro de ocorrência por estelionato em que o dinheiro de um golpe caiu justamente na conta da AveiroPay.
Um nome sim, outro não
Vale uma palavra sobre por que esta reportagem nomeia um e preserva o outro. O Blog do Dina identifica quem a investigação trata como parte consciente do esquema — e resguarda quem ela descreve apenas como instrumento.
É o próprio Ministério Público que afirma que Marcos Vinícius “não figurava como mero laranja”, e aponta um boletim de ocorrência por estelionato ligado à conta da empresa registrada em seu nome. Já o porteiro, dono no papel da facilitadora de R$ 4,6 bilhões, é descrito pela investigação como “mero testa de ferro” — e a defesa da própria LisboaPay chegou a pedir que ele fosse excluído do processo, apontando outro sócio como o verdadeiro responsável. Onde a acusação enxerga alguém usado pela engrenagem, e não quem a operava, este blog não publica o nome.
Quem ficava com a chave do cofre
O padrão, segundo a investigação, era sempre o mesmo. Uma construtora ligada a Camilo Roma de Brito abria a empresa. Em seguida, as cotas eram transferidas para um trabalhador de baixa renda — um porteiro, um copeiro, uma auxiliar de escritório. O nome mudava de dono; o controle, não.
É o que o Ministério Público chama de chave do cofre. A peça aponta que e-mails de bancos confirmavam a liberação de acesso às contas de várias dessas empresas atrelada ao CPF de Camilo. O laranja emprestava o nome para a Receita Federal. As senhas e os acessos, diz o MP, ficavam com o núcleo que comandava o esquema.
A chave do cofre
O método que, segundo o Ministério Público, se repetia em cada empresa.
Uma construtora ligada a Camilo abre a empresa de apostas.
▼
As cotas são transferidas para um trabalhador de baixa renda — um porteiro, um copeiro, uma auxiliar de escritório.
▼
O nome — muda
Na Receita Federal, o dono passa a ser o laranja.
O controle — não
E-mails de banco atrelavam o acesso às contas ao CPF de Camilo. As senhas ficavam com o núcleo.
O laranja emprestava o nome. O casal ficava com a chave do cofre.
Fonte: representação da Operação Conto da Sorte (MP-RN). Tudo segundo a investigação — ninguém foi condenado. Elaboração: Blog do Dina.
A régua de R$ 5 mil
Tudo isso operava sob a chancela de uma autarquia municipal. Para entrar, cada empresa pagava uma outorga de R$ 5 mil. Foram 37 credenciadas. Em dez meses, a loteria rendeu cerca de R$ 8,3 milhões aos cofres de Bodó — enquanto uma única facilitadora movimentava bilhões.
Só em 2024, segundo a Receita Federal, Camilo Roma de Brito abriu 21 empresas de apostas registradas em um mesmo endereço na zona rural de Bodó. Equipes do Ministério Público foram até lá. Não encontraram nada: o endereço é descrito nos autos como “fantasma”.
A loteria municipal foi suspensa pela prefeitura em outubro de 2025, sob pressão do Ministério da Fazenda, que considera ilegal um município licenciar apostas para todo o país. As empresas, aponta a investigação, continuaram operando.
A reportagem ainda não conseguiu contato com os citados nesta reportagem.
Nenhum comentário :
Postar um comentário