terça-feira, 24 de março de 2026

Mineração no semiárido potiguar usa efluente urbano para captação de água em açudes

 

Em Currais Novos, no Rio Grande do Norte, um projeto pioneiro está testando os limites da economia circular em uma das regiões mais vulneráveis ao estresse hídrico no Brasil. A unidade Borborema, da Aura, implementou um sistema que integra o saneamento básico da cidade diretamente ao seu ciclo produtivo, utilizando efluentes domésticos tratados como principal fonte de abastecimento industrial.

A iniciativa surge como uma resposta técnica à escassez hídrica do Seridó. Atualmente, o sistema capta e processa 65% de todo o esgoto produzido pela zona urbana de Currais Novos. Após passar por uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) própria, que inclui etapas de filtragem e ormose reversa para atingir padrões industriais, a água é reinserida na planta de produção.

Resultados positivos: projeto de impacto hídrico e sanitário

Os indicadores da operação revelam a escala da substituição: 90% da água consumida na unidade Borborema é proveniente desse reúso. Na prática, a mineradora deixou de captar água dos açudes locais, reservando esses mananciais exclusivamente para o consumo humano e atividades agrícolas da população potiguar.

Além da preservação dos corpos hídricos, o arranjo proporciona um benefício sanitário indireto ao município. Ao garantir a destinação e o tratamento de mais da metade do esgoto local, o projeto auxilia na melhoria dos índices de saúde pública e reduz a carga poluidora que anteriormente era descartada no meio ambiente sem o devido rigor.

Exemplo a ser seguido

Para o setor, o modelo é um caso de estudo sobre a viabilidade da mineração em biomas críticos. Fred Silva, diretor de operações da unidade Borborema, observa que a iniciativa é um pilar da estratégia de longo prazo da companhia na região.

"A ETE é muito além de uma solução de engenharia para a continuidade operacional, mas um compromisso com a comunidade. Em uma região onde a água dita o ritmo da vida das pessoas, não faria sentido operarmos competindo pelo recurso tão valioso com a comunidade. Conseguimos transformar um passivo ambiental urbano em um insumo essencial, criando um legado de saneamento e segurança hídrica que permanece para o Seridó muito além das nossas atividades", destacou o executivo.



A pertinência e relevância do projeto foram celebrados em premiações que reconhecem ações para mitigar a pegada ambiental da indústria extrativa. O case reforça uma tendência global onde a "licença social" para operar está intrinsecamente ligada à capacidade da indústria de resolver gargalos de infraestrutura das comunidades.

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