O jornalista
Paulo Henrique Amorim (à direita), um dos mais lidos no País, fez uma longa
entrevista com o juiz Marcus Vinícius (à esquerda), de Currais Novos, sobre a
decisão bloqueando so recursos da publicidade do Governo do estado para
garantir o atendimento de sáude a pelo menos 40 pacientes que ingressaram ações
na Justiça na Comarca de Currais Novos.
Segue o
conteúdo do Blog Conversa Afiada do Jornalista Paulo Henrique Amorim
Juiz
suspende publicidade oficial e dá dinheiro à saúde
O Conversa
Afiada entrevistou nessa quarta-feira (31), por telefone, o juiz da comarca de
Currais Novos (RN), Marcus Vinícius Pereira Jr., de 32 anos.
O juiz da
pequena comarca de Currais Novos, que fica a 200 quilômetros de Natal, decidiu
ontem bloquear todos os recursos do Estado do Rio Grande do Norte destinados à
propaganda institucional.
O dinheiro
será transferido para a Saúde pública.
A decisão se
deu em uma ação de uma senhora que processava o Estado para obrigá-lo a
realizar um procedimento cirúrgico fundamental no tratamento do câncer.
Segundo o
juiz Marcus Vinícius, existem mais de 40 processos do mesmo tipo na comarca de
Currais Novos que, segundo ele, vive um colapso na saúde.
Na sentença,
baseado em números do Tribunal de Contas do Estado, o juiz constatou que, no
ano de 2011, o Estado do Rio Grande do Norte gastou 11 milhões de reais em
Saúde, enquanto destinou 16 milhões em propaganda institucional.
Por força da
decisão, as empresas: InterTV Cabugi, TV Ponta Negra, TV Bandeirantes Natal, TV
Tropical, TV União, TV Universitária, Sidys TV a Cabo, Jornal Tribuna do Norte,
Rádios (96, 98, 104,7 e Cabugi3) já pararam de receber os recursos do Estado.
Para se ter
uma ideia dos interesses que o juiz Marcus Vinícius enfrentou, a Inter TV
Cabugi; o jornal Tribuna do Norte; e a rádio Cabugi3, são ligados à família
Alves do Presidente da Câmara, Henrique Alves, e do Ministro da Previdência,
senador Garibaldi Alves (PMDB). O grupo, TV e rádio, é afiliado às Organizações
Globo.
A TV
Tropical, afiliada da Rede Record, pertence à família Maia, do senador Agripino
Maia (DEM).
A terceira
família que manda na política e nas comunicações do estado do Rio Grande do
Norte é a família Rosado, da governadora Rosalba Ciarlini Rosado (DEM), que
aliás, o Juiz Marcus Vinícius intimou a depor no processo.
A família
Rosado é dona do Rede Potiguar de Comunicação.
Dos dez
parlamentares eleitos pelo estado do Rio Grande do Norte em 2010, oito
deputados federais e dois senadores, sete tem um dos sobrenomes: Maia, Alves ou
Rosado.
Segue a
íntegra da entrevista em áudio e texto.
1 – PHA: Dr.
Marcus Vinícius, o senhor poderia justificar, do ponto de vista da lei, a sua
decisão?
Marcus
Vinícius: Sim, Paulo, na verdade existe uma grande demanda de saúde na comarca
em que eu trabalho, numa cidade de interior, no Estado do Rio Grande do Norte.
E o Estado
não vem correspondendo aos anseios da população no que se refere à prestação do
direito à saúde.
Existem
várias pessoas com problemas de câncer, problemas ortopédicos.
Essas
pessoas ajuízam ações judiciais, e o Estado termina – mesmo no final dos prazos
de 70, de 90 dias – não garantindo à população o acesso à saúde.
Inclusive,
em uma Ação Civil Pública ajuizada aqui, em Currais Novos, foi constatado que a
UTI do Hospital Regional não estava funcionando por falta de pagamento aos
médicos contratados.
Em razão
disso, analisando a prioridade orçamentária, nós constatamos que o Estado do
Rio Grande do Norte vem gastando muito dinheiro com a publicidade institucional.
E, por outro lado, ele não tem garantido o acesso à Saúde.
Então, foi
determinado, com base no artigo 461, paragrafo 5º, do Código de Processo Civil,
que o Estado suspendesse os gastos com propaganda institucional, até que
possa garantir o acesso à Saúde, nesse caso específico.
Tão logo o
Estado garanta o direito à saúde, normalmente, seriam liberados esses recursos
destinados a propaganda institucional.
2 – PHA: O
senhor poderia dizer o que está previsto neste artigo 461, paragrafo 5º, do Código
de Processo Civil?
Marcus
Vinícius: O artigo 461, paragrafo 5º, do Código de Processo Civil diz que o
juiz pode tomar as medidas que forem necessárias para garantir a tutela
específica, e garantir que o direito pleiteado seja conquistado.
Por exemplo,
nesse caso de tutela de Saúde, dessa decisão de ontem – que foi o grande
estopim de toda essa situação – é o de uma senhora que necessitava de uma
cirurgia em função de um câncer.
Ela
precisava realizar a drenagem de um tumor no abdome para poder dar início a um
processo de quimioterapia, e o Estado, mesmo intimado, normalmente não garante
esse acesso à saúde.
Então, o
Código de Processo Civil possibilita ao Juiz tomar medidas como essa.
No caso, a
suspensão de recursos para o pagamento de propaganda institucional, para que,
nesse caso especifico, ele forneça o serviço.
A ideia é
que, se o Estado não tem os recursos – como muitas vezes alega – para garantir
o direito à saúde, ele não pode utilizar recursos – também públicos – com o
custeio de propaganda institucional.
Apresenta-se
como algo muito contraditório uma pessoa, por exemplo, essa senhora, que está
com câncer, necessitando de uma cirurgia, não ter acesso à saúde enquanto ela
vê, em sua residência, a exibição de uma propaganda institucional dizendo que o
Estado do Rio Grande do Norte está em ótimas condições, sendo que isso,
infelizmente, não corresponde à verdade.
3 – PHA: O
senhor tem uma ideia do valor desses recursos pagos pelo Estado a Inter TV
Cabugi; TV Ponta Negra; TV Bandeirantes Natal; TV Tropical e etc?
Marcus
Vinícius: Como fundamentação da decisão, foi usado um relatório do Tribunal de
Contas do Estado do Rio Grande do Norte, analisando as contas de 2011 – que tem
se repetido nos anos seguintes. Nesse relatório se chegou à conclusão de que o
Estado gastou no ano R$ 11 milhões com Saúde e, por outro lado, gastou R$ 16
milhões em propaganda institucional.
A análise do
Judiciário é que tem que ser dada prioridade a esse anseio da população, que é
o direito à Saúde. Considerando esse parâmetro, foi determinada suspensão – até
para que se verifique melhor o que exatamente está sendo contratado com essas
empresas.
No decorrer
do processo, cada uma dessas empresas vão ter que informar ao Judiciário quanto
está sendo aplicado, e após toda essa documentação ser juntada no processo,
será proferido um julgamento final.
4 – PHA:
Quando terminará essa questão? Ou seja, quando o senhor vai considerar que o
dever do Estado foi cumprido ?
Marcus
Vinícius: O Judiciário trabalha de acordo com as demandas. Foi concedido à
governadora do Estado do Rio Grande do Norte (Rosalba Ciarlini Rosado, do DEM)
o prazo de cinco dias para ela indicar a data, o local e a equipe destinada à
realização dessa cirurgia.
Agora, da
mesma forma que essa cidadã está precisando de uma cirurgia, aqui na comarca de
Currais Novos nós temos outros 40 processos na mesma situação.
Normalmente
o que ocorreria? O Judiciário acaba fazendo o bloqueio dos recursos públicos e
pagando o serviço na rede privada, o que representa sempre um prejuízo muito
grande para o Estado, e, diga-se, para população. Uma vez que o valor pago pelo
SUS – se nós tivéssemos uma gestão adequada dos recursos de saúde no Estado do
Rio Grande do Norte – é um valor muito menor do que o pago na rede privada.
Então, a
população é penalizada em dois momentos: ela paga mais caro depois de já ter
passado um grande tempo de angustia, já que os nossos hospitais aqui,
infelizmente, estão cheios; e paga mais caro ainda, porque esses procedimentos
acabam sendo feitos na rede privada.
Para a
resolução dessa questão, o Estado do Rio Grande do Norte poderia disponibilizar
esse tratamento à Saúde e, no momento em que fosse verificada a
disponibilização, automaticamente, esse bloqueio aos recursos destinados à
propaganda institucional seria finalizado.
5 – PHA: O
senhor não teme ser crucificado por esses veículos de comunicação?
Marcus
Vinícius: Bom, isso é uma possibilidade. Mas, o juiz, diante da sua
independência, ele tem que trabalhar para honrar os preceitos presentes na Constituição
Federal.
E o direito
à saúde está acima do direito de fazer propaganda institucional.
Então, no
caso concreto, posto em julgamento aqui em Currais Novos, é uma questão de
Justiça – mesmo sabendo dessa possibilidade de crucificação pelos meios de
comunicação: garantir que o povo tenha acesso aos recursos destinados ao povo.
A medida
extrema foi essa, destacando que, antes dessa, várias outras medidas foram
tomadas. Nós tentamos por diversas formas garantir que o Estado garantisse o
direito à Saúde.
Lembrando
que, essas são apenas as pessoas que tem acesso ao Judiciário. Muitas das
pessoas não tem sequer acesso ao Judiciário.
Aqui na
cidade de Currais Novos nós estamos passando por um caos na saúde. Por diversas
vezes, foram fixadas placas na frente do hospital anunciando que a emergência
estava fechada por falta de médicos plantonistas.
Logo que as
medidas foram sendo tomadas pelo Judiciário e pelo Ministério Público, o quadro
começou a mudar.
6 – PHA: O
senhor se baseou em algum precedente, em alguma decisão anterior, ou o senhor
tomou uma decisão pioneira?
Marcus
Vinícius: Eu de fato não conheço nenhuma decisão nesse sentido. Mas tomei a
decisão com a esperança de que, de fato, o poder Judiciário haja com
independência e possa garantir o direito à Saúde para a população.
Eu não estou
confortável em uma ação como essa. O que eu queria é que a população tivesse
acesso aos serviços de Saúde e que não existisse esse tipo de demanda. Mas,
como não existe, o Judiciário tem que enfrentar (o problema) mesmo que tomando
medidas como essa.
Vamos
aguardar o que os tribunais superiores dirão, inclusive o Tribunal de Justiça
do Rio Grande do Norte, acerca da aplicabilidade dessa medida.
7 –
PHA: A governadora já recorreu?
Marcus
Vinícius: Não, não existe nenhum recurso. A medida foi tomada ontem, as pessoas
ainda estão sendo notificadas.
Mas, o que
eu posso garantir é que essa decisão já está sendo cumprida. Os órgãos de
comunicação que receberam (a notificação) já não estão mais exibindo essa
propaganda institucional.
A ideia do
Judiciário é que esses recursos para propaganda sejam liberados tão logo o
Estado garanta o direito à saúde aos cidadãos aqui de Currais Novos.
8 – PHA: A
quanto tempo o senhor está a frente dessa vara de Currais Novos?
Marcus
Vinícius: Eu sou magistrado no Rio Grande do Norte há nove anos, e estou a
frente dessa comarca de Currais Novos há aproximadamente três anos. É uma
comarca bastante complicada, onde nós temos mais de 5 mil processos, não temos
sequer um assessor para garantir uma tramitação maior desses processos, mas o
Tribunal vem trabalhando para garantir uma tramitação mais rápida dos
processos.
O juiz tem
que estar pronto para a qualquer momento garantir essa tutela jurisdicional.
Garantir a população uma decisão, mas não apenas uma decisão, mas uma decisão
efetiva.
Porque de
nada adianta para população que um juiz declare um direito se ele não aplica
uma medida que faça esse direito de fato chegar ao cidadão. A nossa grande
preocupação é exatamente essa, de não só declarar direitos, mas de fazer com
que esses direitos sejam de fato concretizados.

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