Iniciativa acompanhou durante dois anos a rotina de 97 equipes de Atenção Primária à Saúde em dez municípios e qualificou os dados cadastrais de 100% da população adulta das regiões participantes
Em uma visita domiciliar, a pergunta pode ser simples: “Você está tomando o remédio?”. A resposta, muitas vezes, está em um papel preso à geladeira, na memória da pessoa ou no conhecimento do Agente Comunitário de Saúde (ACS) que acompanha aquela família. Saber a resposta dessa questão que até parece simples é um dos desafios no acompanhamento de pessoas com doenças crônicas como a diabetes e hipertensão. “Um homem de 50 anos tinha perdido a visão para o diabetes quando chegamos na visita de campo. É uma doença que tem tratamento se tiver acompanhamento, mas sem as informações organizadas não tem como saber quem está em risco”, relata Paulo Pereira, um dos fundadores do Instituto epHealth.
É nesse intervalo entre a informação que existe no território e aquela que chega aos registros eletrônicos em saúde, contexto no qual atuou o projeto epCertify com Linha de Cuidado HIPERDIA. O projeto integra o Juntos pela Saúde, programa do BNDES em parceria com a Umane e gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), e foi executado pelo Instituto epHealth. A pesquisa científica associada é conduzida em parceria com a MOVE Academic Research Organization, do Hospital Moinhos de Vento.
A iniciativa foi realizada em dez municípios do Nordeste, entre outubro de 2024 e agosto de 2026, para qualificar dados da população e apoiar profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) no acompanhamento de pessoas com diabetes mellitus e hipertensão arterial. Participaram 97 equipes, vinculadas a 88 Unidades Básicas de Saúde (UBS), com mais de 500 Agentes Comunitários de Saúde e Técnicos em Agente Comunitário de Saúde (TACS), cerca de 90 médicos, mais de 120 enfermeiros e aproximadamente 140 técnicos e auxiliares de enfermagem. Juntas, as equipes cuidam de cerca de 17 mil pessoas com diabetes e mais de 45 mil com hipertensão.
“Um dos primeiros desafios identificados foi justamente organizar a base de pessoas atendidas pela rede”, comenta Alysson Nathan Girotto, Head de Tecnologia do Instituto epHealth. Em alguns municípios, um mesmo paciente aparecia mais de uma vez nos sistemas públicos, com diferenças em informações como nome ou CPF, por ter passado por diferentes unidades de saúde. O projeto realizou a certificação e a qualificação cadastral da população adulta dos municípios participantes, chegando a 100% das pessoas com 18 anos ou mais.
Com a base qualificada, o epCertify passou a integrar informações do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) e transformá-las em informações mais detalhadas para gestores e profissionais. A tecnologia permite visualizar, de forma nominal, quais pessoas têm diagnóstico de hipertensão ou diabetes, se estão sendo acompanhadas e quais etapas do cuidado precisam de atenção.
A solução também permite acompanhar os registros ao longo do tempo e identificar situações que podem ficar escondidas nos indicadores gerais. “Quando a gente olha para esses dados com mais profundidade, consegue perceber coisas que não aparecem no indicador final. Às vezes, o profissional está fazendo o trabalho, mas aquilo não está registrado. E, se não está registrado, para o sistema é como se não tivesse acontecido”, explica Pedro Marton Pereira, presidente do Instituto epHealth.
Em um dos municípios visitados, por exemplo, o indicador registrado de pessoas em tratamento medicamentoso para hipertensão e diabetes estava em torno de 6%. Durante o trabalho de campo, a equipe identificou que algumas UBS não tinham impressora e que prescrições eram feitas manualmente, fazendo com que parte das informações não chegasse ao prontuário eletrônico. Ao longo da implantação do projeto, o indicador registrado chegou a aproximadamente 40%. “Ainda estamos analisando os dados, então não podemos afirmar que existe uma relação causal entre o projeto e essa mudança, mas isso já demonstra como a qualidade do registro interfere na visibilidade que gestores e profissionais têm sobre o cuidado realizado”, explica Marton.
Além da tecnologia, o projeto envolveu visitas aos municípios, capacitação e acompanhamento das equipes. O trabalho de campo identificou diferentes níveis de maturidade digital entre as cidades: enquanto sete municípios já utilizavam tecnologias da epHealth, três ainda não tinham essa estrutura. Ao final da implantação, os dez passaram a contar com mecanismos de integração, organização e visualização dos dados.
A adaptação às rotinas locais também foi parte da estratégia. O WhatsApp, por exemplo, passou a ser utilizado para o envio de alertas aos profissionais, aproveitando um canal já presente no cotidiano das equipes “Quando a gente fala em gerar conhecimento em saúde, não é só pegar uma base de dados. É entender o que está acontecendo no território, o que o profissional está vivendo e como aquela informação pode voltar para ele de uma maneira que ajude no cuidado”, comenta Paulo Pereira.
O projeto deixa uma estrutura tecnológica instalada nos municípios participantes. O epCertify com Linha de Cuidado HIPERDIA permanece como ferramenta para higienização e certificação dos dados e acompanhamento de pessoas com diabetes e hipertensão arterial disponível em versão web e mobile, este último possui suporte para operar sem conexão à internet, possibilitando o uso em visitas domiciliares em áreas sem conectividade de rede. Enquanto o Centralizador de Dados Próprio permite a integração das informações nas Unidades que não possuíam conexão entre os prontuários.
Com o encerramento da iniciativa, a estrutura construída permanece nos municípios e pode servir de base para novas ações de saúde. Para o Instituto epHealth, o projeto reforça a importância de integrar dados, profissionais e serviços para dar mais visibilidade às pessoas que precisam de acompanhamento e apoiar uma atenção mais coordenada às doenças crônicas. “Queremos deixar uma rede com mais informação para enxergar as pessoas que estão por trás dos indicadores e apoiar as equipes responsáveis por cuidar delas”, conclui o presidente do Instituto.

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