segunda-feira, 1 de junho de 2026

Operação contra fraude e desvio de dinheiro público atinge produtora de Dark Horse, filme de Bolsonaro

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1º) uma operação para investigar suspeitas de fraude em licitação, irregularidades na execução contratual e possível desvio de recursos públicos em um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). A entidade pertence a Karina Ferreira da Gama, sócia da Go UP Entertainment Ltda., produtora do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo informações do Estadão, a Operação Wi-Fi cumpre oito mandados de busca e apreensão autorizados pela 1ª Vara Regional de Garantias. Entre os alvos estão o ICB, a Go UP, dois endereços residenciais de Karina e a sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo.

O contrato investigado, firmado em 2024, previa a implantação, operação e manutenção de 5 mil pontos públicos de acesso à internet em comunidades da periferia de São Paulo, dentro do programa WiFi Livre SP. Inicialmente, o valor era de R$ 108 milhões, mas aditivos elevaram os repasses previstos para R$ 157,1 milhões.

As autoridades investigam se houve direcionamento no processo de seleção da entidade, superfaturamento e pagamento sem a efetiva prestação dos serviços contratados. De acordo com a apuração, pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos sem comprovação de execução integral dos serviços. O Estadão informou ainda que, até dezembro de 2025, a Prefeitura já havia pago R$ 83 milhões ao instituto e reservado outros R$ 53 milhões no orçamento deste ano.

O procedimento teria chamado atenção porque o chamamento público contou apenas com a participação do ICB, entidade que, segundo a investigação, não teria experiência técnica prévia no setor de comunicações. O Tribunal de Contas do Município apontou 20 irregularidades no edital e recomendou a suspensão do contrato, mas a secretaria manteve a contratação.

Outro ponto analisado é a diferença entre os valores praticados anteriormente pela Prefeitura e os custos previstos no contrato com o ICB. Segundo a investigação, contratos anteriores com a Prodam, empresa de processamento de dados do município, previam custo de R$ 230 para implantação de cada ponto de Wi-Fi e R$ 306 para manutenção. No contrato com o ICB, o valor mensal por ponto instalado foi estipulado em R$ 1,8 mil, sem justificativa técnica ou econômica considerada suficiente pelos investigadores.

A Polícia Civil também solicitou acesso a análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações financeiras do ICB, da Go UP e de Karina. Uma das linhas de investigação apura se parte dos recursos públicos do programa WiFi Livre SP pode ter sido transferida para a produtora durante o período de produção do filme “Dark Horse”.

Em ofício citado pelo Estadão, o delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro, afirmou haver “consistentes suspeitas de confusão patrimonial” entre o instituto e a produtora. O documento menciona ainda suspeita de que recursos públicos tenham sido desviados para custear atividades ligadas ao filme, por meio de empresas subcontratadas e organizações sociais vinculadas à investigada.

O filme “Dark Horse”, que significa “azarão” em inglês, aborda a história de Jair Bolsonaro. A produção também é alvo de questionamentos após a revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria tratado com o banqueiro Daniel Vorcaro o financiamento do longa-metragem. Segundo o Estadão, mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar o filme.

A operação desta segunda-feira é resultado de inquérito aberto pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro, vinculada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania. A investigação foi instaurada a pedido do Ministério Público estadual, após denúncia encaminhada ao Ministério Público Federal.

Com informações do Estadão

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