A cozinha sempre foi um espaço de refúgio e descoberta para Alberto Barbalho, de 19 anos de idade. Na infância, ajudava a avó materna nas tarefas culinárias, criando um vínculo afetivo que, com o tempo, se transformou em projeto de vida. Hoje, é aluno do curso de Gastronomia da Universidade Potiguar (UnP), integrante do maior e mais inovador ecossistema de ensino de qualidade do Brasil: o Ecossistema Ânima, e sua trajetória como estudante com Transtorno do Espectro Autista (TEA) se destaca como exemplo de inclusão.
Em abril, mês de conscientização sobre o TEA, a história de Alberto, que é autista não verbal, amplia o debate sobre diversidade no ensino superior. A decisão de ingressar na universidade não foi simples. “A educação inclusiva ainda não está plenamente consolidada nem na educação básica. Por isso, tínhamos receio em relação à receptividade no ambiente universitário”, relata a mãe do estudante, Rochele Elias.
O cenário começou a mudar com o suporte do Núcleo de Apoio Psicopedagógico e Inclusão (NAPI) da UnP e o acolhimento encontrado entre professores e colegas. “Esse apoio trouxe mais segurança e contribuiu para a autoestima dele. Meu filho passou a mostrar suas habilidades em sala, conquistando respeito e reconhecimento, independentemente do diagnóstico”, detalha.
Outro fator importante para a adaptação foi a presença de Alexssandra Venâncio, que o acompanha há 18 anos e decidiu cursar Gastronomia motivada pela relação com Alberto. Segundo Alexssandra, a evolução do jovem após o ingresso na graduação é perceptível, especialmente nas interações sociais. “Na faculdade, sou mais uma colega de turma. Meu papel é garantir que ele esteja bem para que possamos vivenciar juntos a rotina universitária e todas as descobertas que ela proporciona. Ver como os colegas o acolheram trouxe segurança para nós dois. Essa parceria fez com que ele se sentisse pertencente e motivado”, conta a cuidadora.
Aprendizado coletivo e compromisso com a diversidade
A professora Luciana Câmara, que acompanha Alberto no curso de Gastronomia da UnP, explica que as adaptações pedagógicas são pensadas para potencializar suas habilidades. Entre as estratégias adotadas estão orientações objetivas, organização das atividades e valorização do trabalho em equipe, práticas que também beneficiam toda a turma.
“Alberto é dedicado e atencioso. Organizamos as aulas de forma clara, com objetivos definidos e sequências lógicas nas preparações. Isso favorece o desempenho dele e permite que expresse seu potencial, especialmente nas atividades práticas”, comenta a docente.
Esse contexto também reflete um compromisso institucional mais amplo com a inclusão. Em 2025, a UnP foi reconhecida com o Selo Empresa Amiga do Autista, concedido pela Prefeitura de Natal. Essa conquista foi fruto do trabalho do NAPI da instituição, que já atendeu mais de 600 alunos e hoje acompanha cerca de 150 estudantes universitários.
“Nosso compromisso é assegurar que o estudante tenha condições reais de permanência e desenvolvimento dentro da universidade. Isso passa por um olhar individualizado, que respeita as diferentes formas de aprendizagem e valoriza o potencial de cada aluno. Ao mesmo tempo, a convivência com a neurodiversidade também é fundamental para os demais estudantes, pois amplia a empatia, o respeito às diferenças e contribui para uma formação mais humana e colaborativa”, afirma a pró-reitora acadêmica da UnP, Jussele Santiago.
Nesse contexto, para Rochele, histórias como a do filho ajudam a mostrar que o ensino superior pode e deve ser um caminho possível para pessoas com TEA. “As famílias precisam olhar para as potencialidades, não apenas para o diagnóstico. Mesmo quando não falam, eles demonstram suas escolhas. Cabe a nós perceber e oferecer oportunidades para que sigam seus próprios caminhos”, conclui.
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