Duas dissertações de mestrado que analisam aspectos da Comunidade Quilombola Macambira, localizada no município de Lagoa Nova, a 214 km de Natal (RN), foram apresentadas à própria comunidade durante seminário organizado pelo Grupo de Pesquisa e Extensão Territórios do Semiárido (Semiar), vinculado ao Departamento de Geografia do Centro de Ensino Superior do Seridó (Ceres), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A informação foi publicada no Portal da UFRN.
Com foco nas percepções das mulheres quilombolas sobre o território — especialmente no que diz respeito aos conflitos e às formas de resistência —, os dois trabalhos foram orientados pelo professor Leandro Vieira Cavalcante, docente do Departamento de Geografia do Ceres e coordenador do Semiar. Segundo os organizadores, o seminário teve como princípio a construção coletiva do conhecimento, desde o início do processo de pesquisa, reforçando o papel social das dissertações e da própria universidade. A iniciativa também reconhece o protagonismo das mulheres enquanto produtoras de saber.
Quintais produtivos e complexos eólicos
Uma das dissertações, de autoria de Maria Flávia Dantas da Cruz, foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia (GeoCeres/Caicó) e teve como objetivo analisar as contribuições dos quintais produtivos para o fortalecimento da convivência com o semiárido na Comunidade Quilombola Macambira, a partir do trabalho realizado pelas mulheres. O estudo demonstrou que os quintais produtivos constituem importante instrumento de resistência, ao promover novas formas de existir e resistir na comunidade, dinamizando o território por meio da construção de modos de vida sustentáveis.
A outra dissertação, de Rachel de Souza Maximino, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (PPEUR/Natal), buscou analisar, sob a perspectiva das mulheres quilombolas de Macambira, os impactos da instalação e da operação de complexos eólicos sobre seus corpos-territórios, bem como sobre os papéis de gênero e as estratégias de resistência na comunidade.
A pesquisa evidenciou as relações entre os conflitos socioambientais e seus desdobramentos nos corpos das mulheres, além de apontar como as dinâmicas de gênero e as formas de resistência se expressam e se materializam no território.
Para o professor Cavalcante, a atividade reveste-se de grande relevância por se constituir como espaço de validação social do conhecimento produzido a partir de pesquisas comprometidas ética e politicamente com a realidade da comunidade. Segundo ele, ao socializar resultados construídos coletivamente com as mulheres quilombolas, rompe-se com a lógica acadêmica tradicional de produção isolada do saber, reconhecendo-as como sujeitas centrais do processo investigativo.
Ainda de acordo com o docente, a ação reafirma a pesquisa como prática dialógica, na qual a universidade se posiciona de forma horizontal em relação à comunidade, fortalecendo o reconhecimento dos saberes locais e das experiências vividas no enfrentamento aos conflitos decorrentes dos empreendimentos eólicos.
Durante o seminário, as próprias mulheres da comunidade puderam debater os resultados e refletir sobre as contribuições das pesquisas para o fortalecimento das estratégias coletivas de resistência.
A atividade reuniu 90 participantes, que acompanharam as apresentações e destacaram a importância dos estudos para o fortalecimento das lutas comunitárias em Macambira. Estiveram presentes mulheres dos municípios de Lagoa Nova, Bodó e Caicó, representando dez grupos, além de integrantes da Cáritas Diocesana de Caicó, do coletivo Seridó Vivo e da UFRN.
Mulheres empoderadas
Segundo Idaianna Maria, quilombola de Macambira, as pesquisas contribuíram para evidenciar o quanto as mulheres da comunidade são conscientes das problemáticas que enfrentam e atuam de forma empoderada. Ela ressaltou a emoção de ver a história da comunidade narrada pelas próprias mulheres, por meio das dissertações, e parabenizou o compromisso assumido pelas pesquisadoras.
Para Maria Flávia Dantas da Cruz, o momento de validação social representou etapa fundamental do processo, ao possibilitar a apresentação dos resultados e a devolutiva do conhecimento à comunidade. Ela afirmou que foi muito gratificante receber a aprovação das quilombolas, bem como perceber o reconhecimento de suas próprias potencialidades e da resistência que constroem no território.
Rachel de Souza Maximino também destacou a importância do encontro. Segundo ela, o momento de validação foi especialmente emocionante, pois confirmou que a pesquisa conseguiu expressar as experiências vividas pelas mulheres de Macambira. Após a apresentação, a pesquisadora se emocionou ao relembrar as idas a campo e os momentos compartilhados com a comunidade.
Ela enfatiza que a universidade deve desenvolver pesquisas comprometidas com a construção de um futuro mais justo para a população. Por isso, iniciativas como a realização dos estudos e a devolutiva à comunidade — assim como a atuação de grupos como o Semiar — são fundamentais.
O orientador dos trabalhos reforça, por fim, a necessidade de a universidade ampliar o diálogo com as comunidades tradicionais, desenvolvendo ações de pesquisa e extensão voltadas para e com os sujeitos dos territórios, com compromisso político, ético e acadêmico, a exemplo da práxis adotada pelo Semiar.
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